quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O amor por extenso

Serás um dia capaz
de me soletrar a palavra amor ?

(isto mesmo que eu me canso de tanto te tentar fazer ?)

E de me dizeres letra por letra
de que a palavra é composta ?

É que eu acho que provavelmente me engano
e me baralho

Na ânsia de ta procurar repetir

Devo persistir num erro recorrente
persistente

Um acto falhado do qual não consigo fugir

trocando uma das vogais
ou consoante

um ciclo vicioso em que me prendo

Necessito então que me corrigas
e que mo digas

o que a palavra realmente significa

Que ma pronucies
sílaba a sílaba

E da forma correcta

Amor
(mas por extenso)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Um dia de cada vez

É o que todos me dizem para fazer

Mas um dia já não é suficiente
Um dia já se tornou demasiado longo para viver

Então agora

Faço assim :
vivo só meio dia de cada vez

Mas meio dia também já se tornou muito comprido para mim

Por isso agora
vivo então uma hora de cada vez

Mas meia hora também já se tornou demasiado grande para mim

Assim então
vivo só um minuto de cada vez

Mas um minuto já passou a ser tempo demais para viver

Então, espera agora  ...
é só um segundo

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Distopia

Todas as religiões, filosofias, utopias, (distopias...)
Partem do princípio de que há algo de errado no mundo.

Que há qualquer coisa neste universo que não devia estar a acontecer.
Qualquer coisa que não se devia estar passar...

Qualquer coisa que devíamos estar a fazer
Ou que nós não devíamos estar a fazer ...

Mas ...
então e se não houver ?
Então e se o mundo estivesse a funcionar exactamente como devia... ?

Se todas as pessoas estivessem afinal a fazer aquilo que era suposto fazerem.
Se tudo estivesse a acontecer mesmo exactamente como devia acontecer ...

Não estaremos nós a viver afinal numa utopia ?

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Um corpo estranho

Nós na realidade já só estamos meio vivos.
Uma boa parte de nós tornou-se já incapaz de amar
ou mesmo de sentir (seja o que for).
Tornámo-nos corpos estranhos.
Indiferentes uns aos outros.
Que já nem sequer desejo sentem.

Fazemos de conta que ouvimos as conversas dos outros
(e que lhes acharmos graça)
ou que somos felizes nas nossas sefies.

Para evitar males de maior.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Romance

A própria palavra
encerra em si mesmo esse caracter dúbio das coisas.

Nunca se sabe se se está a falar de de um acontecimento real
(na vida de duas pessoas)

Ou se simplesmente se trata apenas de uma obra de ficção

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os poetas sedutores

Acham que Camões ou Bocage
possuíram mesmo todas aquelas mulheres ?

Acham mesmo que eles as conseguiram seduzir ?

Acham que Leonor, Olinda (ou mesmo Ofélia...)
se deixariam realmente encantar por um zarolho ou por um bêbado ?

Pois na realidade
acho que se eles as tivessem verdadeiramente seduzido
nenhum dos seus poemas teria chegado realmente até nós

E se hoje existem os seus poemas
Isso deve-se ao facto de eles nunca as terem efectivamente possuído
(agora tenho a certeza)

Que a única forma que eles tiveram de as ter
foi exactamente assim : apenas com a sua alma

E é então desta forma que uma desconhecida Helena
ou uma anônima Alzira

Um dia puderam por todos nós ser verdadeiramente possuídas