terça-feira, 27 de novembro de 2012

45

são neste momento 45

o animal está mais vivo do que nunca
e do homem só se vislumbra apenas uma pequena sombra

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

às moscas


nunca percebemos bem como é que elas aparecem
como é que de repente temos a sala cheia delas
como é que o ar (o vazio), o espaço entre as coisas
fica subitamente repleto de uma espécie de novelo que se mexe
que flutua nesse hiato
parece que são pontos em movimento
que se mexem aleatoriamente

mas outro dia parece finalmente vi como é que isso acontece
parece que vinha doida
desesperada para entrar
à procura de uma merda qualquer

terça-feira, 13 de novembro de 2012

VIVO OU MORTO


um dia acordei e descobri que (afinal) não estava morto
que havia certas pessoas (e emoções)
que (já) não me deixavam indiferente

porque é que acordei?
não sei.
porque é que não estou morto?
não sei.

só sei que há certas emoções
que já não me deixam indiferente

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

almas penadas


hoje vamos às escuras para o trabalho
a hora ainda não mudou
mas já desligam as luzes mais cedo para poupar
antes do sol vir nascer, antes do alarme
não sei porque estou já desperto
(já não consigo mais descansar)

vejo por ali outras figuras obscuras que também se deslocam
vultos indistintos
serão ainda funcionários (serão ainda pessoas ?)
ou antes espectros
almas penadas (condenadas)
que (já) não conseguem repousar em paz

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

a outra


sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida

já não consigo dormir
nem pensar noutra coisa

o que é que um homem pode fazer nesta situação ?
alguém me dirá ?

quem disse que temos forças para aguentar isto ?
quem foi que disse ?

ela vai dar comigo em doido
Isto assim não vai dar

eu não vou conseguir resistir
como poderei ?
(ela não mo deixa)

sim.
é verdade.

tenho outra mulher na minha vida
(e vivo em angustia permanentemente)

ela que começou
aqui e ali

nalgumas conversas
nalgumas reacções

a insinuar-se gradualmente
e eu não dei importância

e eu não prestei atenção
(fiz que não prestei atenção)

e assim
(começou assim)

como que de repente
ela (já) lá estava

perante os meus olhos
recusei a evidencia

até brinquei com isso
(entrei em negação)

mas começou a ser impositiva
a confrontar-me já directamente

a deixar-me impotente
perante a situação

incontornável
cada vez mais presente

já sem poder negar ou fazer nada
tive de dar a mão à palmatória

e a começar a ter de aceitar os factos
a conformar-me da melhor maneira que podia

desde o momento em que a (re)conheci
a minha vida já não era o mesmo

uma vida dividida
bipolar

uma outra personalidade
uma outra ela (e um outro eu)

aquela mulher que eu já não amava
(apesar de ser ainda Ela)

e a vontade de fugir
de me escapar

a toda a hora
por tudo e por nada

as fugas tornaram-se imprescindíveis
necessárias ao meu bem estar

desculpava-me com o trabalho (desculpa clássica)
já não tinha escolha possível

Ela, a minha mulher,
começou a desconfiar

a desconfiar que algo se poderia estar a passar
e a verdade é que se estava realmente algo a passar

mas eu não podia contar-lhe
(ela nunca o conseguiria ouvir )

mas a desconfiança ficou,
os conflitos começaram a agudizar-se

os momentos de sexo intenso
aproveitando os ocasionais intervalos

as ameaças de separação
sempre, constantemente

eu já a começar a pensar como é que poderia recomeçar a minha vida
tendo que sair de casa

a sua frustração a dizer-me
nos seus momentos mais cândidos

que  provavelmente a única forma de conseguir ser feliz
era eu ir-me mesmo embora

e eu, tentando aproveitar o melhor que podia
os poucos tempos que tinha com a mulher que afinal amava

depois dos terapeutas e dos conselheiros matrimoniais
que nenhuma solução real podiam afinal oferecer

então, de repente...
ela subitamente desapareceu.

foi-se embora
a outra mulher

deixou-me
(em paz?)

aquela
que durante todo aquele tempo

tinha-se introduzido no meu lar
tinha-se  metido na minha vida

e tomado conta d´Ela (infernizando-a)
tinha finalmente desaparecido

e só então
as coisas se foram gradualmente acalmando

e nem procurei saber como ou porquê
tal foi a minha sensação de alívio

nem se fizeram (mais) perguntas
porque se calhar nenhum de nós já queria (mesmo) saber as respostas

mas depois percebi
tornou-se claro para mim

esquizofrenia, bipolaridade ?
dupla personalidade ?

ela, a outra, tinha-se ido embora ...
ELA, a minha mulher, tinha começado a tomar os comprimidos

sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida (mas era ELA também...)