sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida
já não consigo dormir
nem pensar noutra coisa
o que é que um homem pode fazer nesta situação ?
alguém me dirá ?
quem disse que temos forças para aguentar isto ?
quem foi que disse ?
ela vai dar comigo em doido
Isto assim não vai dar
eu não vou conseguir resistir
como poderei ?
(ela não mo deixa)
sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida
(e vivo em angustia permanentemente)
ela que começou
aqui e ali
nalgumas conversas
nalgumas reacções
a insinuar-se gradualmente
e eu não dei importância
e eu não prestei atenção
(fiz que não prestei atenção)
e assim
(começou assim)
como que de repente
ela (já) lá estava
perante os meus olhos
recusei a evidencia
até brinquei com isso
(entrei em negação)
mas começou a ser impositiva
a confrontar-me já directamente
a deixar-me impotente
perante a situação
incontornável
cada vez mais presente
já sem poder negar ou fazer nada
tive de dar a mão à palmatória
e a começar a ter de aceitar os factos
a conformar-me da melhor maneira que podia
desde o momento em que a (re)conheci
a minha vida já não era o mesmo
uma vida dividida
bipolar
uma outra personalidade
uma outra ela (e um outro eu)
aquela mulher que eu já não amava
(apesar de ser ainda Ela)
e a vontade de fugir
de me escapar
a toda a hora
por tudo e por nada
as fugas tornaram-se imprescindíveis
necessárias ao meu bem estar
desculpava-me com o trabalho (desculpa clássica)
já não tinha escolha possível
Ela, a minha mulher,
começou a desconfiar
a desconfiar que algo se poderia estar a passar
e a verdade é que se estava realmente algo a passar
mas eu não podia contar-lhe
(ela nunca o conseguiria ouvir )
mas a desconfiança ficou,
os conflitos começaram a agudizar-se
os momentos de sexo intenso
aproveitando os ocasionais intervalos
as ameaças de separação
sempre, constantemente
eu já a começar a pensar como é que poderia recomeçar a minha vida
tendo que sair de casa
a sua frustração a dizer-me
nos seus momentos mais cândidos
que provavelmente a única forma de conseguir ser feliz
era eu ir-me mesmo embora
e eu, tentando aproveitar o melhor que podia
os poucos tempos que tinha com a mulher que afinal amava
depois dos terapeutas e dos conselheiros matrimoniais
que nenhuma solução real podiam afinal oferecer
então, de repente...
ela subitamente desapareceu.
foi-se embora
a outra mulher
deixou-me
(em paz?)
aquela
que durante todo aquele tempo
tinha-se introduzido no meu lar
tinha-se metido na minha vida
e tomado conta d´Ela (infernizando-a)
tinha finalmente desaparecido
e só então
as coisas se foram gradualmente acalmando
e nem procurei saber como ou porquê
tal foi a minha sensação de alívio
nem se fizeram (mais) perguntas
porque se calhar nenhum de nós já queria (mesmo) saber as respostas
mas depois percebi
tornou-se claro para mim
esquizofrenia, bipolaridade ?
dupla personalidade ?
ela, a outra, tinha-se ido embora ...
ELA, a minha mulher, tinha começado a tomar os comprimidos
sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida (mas era ELA também...)
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