sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

E se for só sexual ?

E se for só sexual ?
Ó Poeta intelectual

E não culpa virtual
de um sonho virginal

Que farás tu afinal
da tua agonia terminal ?

E se o seu olhar te atravessar
e seu cabelo se soltar ?

Que farás (tu) então ?
á tua angústia sem razão ?

E se o seu torso se insinuar
se aquela axila te interpelar

Que farás das tuas frase ecléticas
(ou com as tuas rimas patéticas)

Se aquela blusa se rasgar
e se aquele seio te ousar ?

Que dirás tu com os teus poemas credíveis
(e seus versos sofríveis)

Quando a sua perna se cruzar
(ou então se descruzar)

Mais que um olhar de desdém
não encontrarás tu também

Palavras até para o desejo
ou mesmo rimas para o ensejo ?

Não se humedeçerão também tuas palavras
ou se entesarão de vez as tuas quadras ?

E se for só sexual ?
Ó poeta marginal

E não culpa transversal
do pecado original

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

o olhador


E quando todos sentem necessidade de ser vistos
eu observo
uso a pornografia* de ser invisível
(e) posso nem sequer ter de existir

sou um olhador **
(não confundir com voyer)
vejo, e registo.
aponto emoções

às vezes pequenos pormenores, detalhes
a que pouca gente dá atenção

terça-feira, 27 de novembro de 2012

45

são neste momento 45

o animal está mais vivo do que nunca
e do homem só se vislumbra apenas uma pequena sombra

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

às moscas


nunca percebemos bem como é que elas aparecem
como é que de repente temos a sala cheia delas
como é que o ar (o vazio), o espaço entre as coisas
fica subitamente repleto de uma espécie de novelo que se mexe
que flutua nesse hiato
parece que são pontos em movimento
que se mexem aleatoriamente

mas outro dia parece finalmente vi como é que isso acontece
parece que vinha doida
desesperada para entrar
à procura de uma merda qualquer

terça-feira, 13 de novembro de 2012

VIVO OU MORTO


um dia acordei e descobri que (afinal) não estava morto
que havia certas pessoas (e emoções)
que (já) não me deixavam indiferente

porque é que acordei?
não sei.
porque é que não estou morto?
não sei.

só sei que há certas emoções
que já não me deixam indiferente

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

almas penadas


hoje vamos às escuras para o trabalho
a hora ainda não mudou
mas já desligam as luzes mais cedo para poupar
antes do sol vir nascer, antes do alarme
não sei porque estou já desperto
(já não consigo mais descansar)

vejo por ali outras figuras obscuras que também se deslocam
vultos indistintos
serão ainda funcionários (serão ainda pessoas ?)
ou antes espectros
almas penadas (condenadas)
que (já) não conseguem repousar em paz

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

a outra


sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida

já não consigo dormir
nem pensar noutra coisa

o que é que um homem pode fazer nesta situação ?
alguém me dirá ?

quem disse que temos forças para aguentar isto ?
quem foi que disse ?

ela vai dar comigo em doido
Isto assim não vai dar

eu não vou conseguir resistir
como poderei ?
(ela não mo deixa)

sim.
é verdade.

tenho outra mulher na minha vida
(e vivo em angustia permanentemente)

ela que começou
aqui e ali

nalgumas conversas
nalgumas reacções

a insinuar-se gradualmente
e eu não dei importância

e eu não prestei atenção
(fiz que não prestei atenção)

e assim
(começou assim)

como que de repente
ela (já) lá estava

perante os meus olhos
recusei a evidencia

até brinquei com isso
(entrei em negação)

mas começou a ser impositiva
a confrontar-me já directamente

a deixar-me impotente
perante a situação

incontornável
cada vez mais presente

já sem poder negar ou fazer nada
tive de dar a mão à palmatória

e a começar a ter de aceitar os factos
a conformar-me da melhor maneira que podia

desde o momento em que a (re)conheci
a minha vida já não era o mesmo

uma vida dividida
bipolar

uma outra personalidade
uma outra ela (e um outro eu)

aquela mulher que eu já não amava
(apesar de ser ainda Ela)

e a vontade de fugir
de me escapar

a toda a hora
por tudo e por nada

as fugas tornaram-se imprescindíveis
necessárias ao meu bem estar

desculpava-me com o trabalho (desculpa clássica)
já não tinha escolha possível

Ela, a minha mulher,
começou a desconfiar

a desconfiar que algo se poderia estar a passar
e a verdade é que se estava realmente algo a passar

mas eu não podia contar-lhe
(ela nunca o conseguiria ouvir )

mas a desconfiança ficou,
os conflitos começaram a agudizar-se

os momentos de sexo intenso
aproveitando os ocasionais intervalos

as ameaças de separação
sempre, constantemente

eu já a começar a pensar como é que poderia recomeçar a minha vida
tendo que sair de casa

a sua frustração a dizer-me
nos seus momentos mais cândidos

que  provavelmente a única forma de conseguir ser feliz
era eu ir-me mesmo embora

e eu, tentando aproveitar o melhor que podia
os poucos tempos que tinha com a mulher que afinal amava

depois dos terapeutas e dos conselheiros matrimoniais
que nenhuma solução real podiam afinal oferecer

então, de repente...
ela subitamente desapareceu.

foi-se embora
a outra mulher

deixou-me
(em paz?)

aquela
que durante todo aquele tempo

tinha-se introduzido no meu lar
tinha-se  metido na minha vida

e tomado conta d´Ela (infernizando-a)
tinha finalmente desaparecido

e só então
as coisas se foram gradualmente acalmando

e nem procurei saber como ou porquê
tal foi a minha sensação de alívio

nem se fizeram (mais) perguntas
porque se calhar nenhum de nós já queria (mesmo) saber as respostas

mas depois percebi
tornou-se claro para mim

esquizofrenia, bipolaridade ?
dupla personalidade ?

ela, a outra, tinha-se ido embora ...
ELA, a minha mulher, tinha começado a tomar os comprimidos

sim.
é verdade.
tenho outra mulher na minha vida (mas era ELA também...)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sexo extraconjugal


sei que há homens que no meu lugar
resolveriam todas as suas questões de forma muito mais simples
com sexo extraconjugal.

Infelizmente essa não é a minha matriz
(porque é que eu tenho sempre de complicar tudo ?)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

uma página em branco

como me sinto hoje ?

em branco
(como uma página em branco)
na qual qualquer ficção pode vir a ser escrita
qualquer história pode vir a surgir, qualquer tragédia pode vir a suceder (*)

mas se olharmos com mais atenção para essa página
podemos ver que ela não é completamente lisa

ao passarmos a mão por ela
podemos sentir-lhe uma certa textura (como é afinal sensível ao tacto)

ao acariciarmos a sua superfície
com as pontas dos dedos podemos se calhar descobrir-lhe determinados sulcos (preexistentes)

se então ao de leve
lhe passarmos com um lápis
podemos identificar-lhe talvez algumas letras
e até algumas palavras surgindo em negativo

poderão ser até já frases
mas sem nexo

de resto
tudo é ainda incompreensível

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Quem é que te disse que podias deixar arrastar assim o olhar ?


O que é que estás a fazer ?
Quem é que te disse que podias deixar arrastar assim o teu olhar ?
Não podes fazer isso , não sabes ?
Fizeste tropeçar aquela senhora.

Não é uma senhora, é uma mulher.

Não sejas vulgar. Uma senhora é sempre uma mulher.

E uma mulher não pode ser sempre uma senhora ?

Sabes bem que não.

Agora estás a ser preconceituosa.

Mas para que é que foste olhar assim para ela ?
Olha que é uma senhora. tem compromissos. obrigações.

Já te expliquei que ela não deixou de ser uma mulher.
E se ela (já) tropeçou, isso quer dizer alguma coisa,
Só confirma o que eu disse.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Pensam Amor

Há uns que pensam nela pelo sexo

Há outros pensam ser muito mais do que isso
Eu por mim não sei quando me será possível voltar à Pensão Amor


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Fado Metropolitano

















Os avisos nas estações de metro em Lisboa
Possuem uma caracteristica bastante poetica :

Quando ainda temos sentido
é porque ainda não temos realmente destino
mas quando passamos a ter destino
foi porque deixámos de ter sentido



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Reflexos

Quanto finalmente o seu olhar sossegou,
cansado de procurar uma figura feminina que de alguma forma lho prendesse,
Viu que o tinha pousado sobre uma superfície escura, vagamente espelhada que reflectia apenas a sua propria imagem.
Mas já não era o olhar de narciso que ali (se) encontrava.
Apesar de lhe ser vagamente agradável, contemplou ali apenas uma face grave e séria. consciente de si.
Contemplava apenas a sua própria solidão.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os jogadores de bairro já nao festejam os golos

Os jogadores da rua não festejam os golos

Jogam,
mas sem convicção
correm, saltam e até vão ao despique
mas sem alma

Nas suas faces parece estar apenas mais uma obrigação
(de quem nada mais tem para fazer)

Lançam-se sobre a bola
mas já não encontram nenhuma razão para se alegrar
com os próprios golos que ali marcam

terça-feira, 5 de junho de 2012

Nem de propósito

Detesto toda a criação que é feita de propósito
Toda a arte que interessa é feita sem propósito
ou a propósito de coisa nenhuma

A arte que (me) interessa é aquela que se impõe ao criador
e lhe diz :
faz-me... e não discutas !

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Vogais mudas

(acordo, e mudas)

Consoantes mudas ?
Comigo elas ficam.

O acordo ortográfico já não é para mim.
Porque eu, por mim, vou-me deixar ficar pela antiga grafia

E que fiquem sabendo também, que se erros tenho que dar
então quero que sejam dados também na velha ortografia

Consoantes mudas ?
PFFFF !

E alguem sabe se existem vogais mudas ?
porque se elas existirem
comigo também elas ficarão !

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Na poesia, a poligamia


Na poesia, a poligamia
ela é permitida
posso-me casar de manhã com Natália
e à noite com Sofia

e (n)o adultério, também ela
assim mesmo se perfila
mesmo casado com Florbela
posso ir ter com Cecilia

mas é nas amizades que ela já (se) destoa
pois se convivo com Bocage
não posso ir ter com (outra) Pessoa

segunda-feira, 14 de maio de 2012

parece que sustive a respiração

e então passaste inesperadamente por mim envolto num imenso manto de aplausos.
e quando a igreja começou a regurgitar todas aquelas pessoas
é que pude finalmente retomá-la no ponto em que a tinha suspenso
sustida no momento em que proferiram o teu nome e duas datas.

mais tarde, alguem reconheceu a minha figura no aparelho.
vi-me : não passava de uma sombra ... um vulto que atravessava a noite no contracampo de um realizador que falava de ti.
vi-me,  no meio de todas aquelas figuras publicas, perguntando-me que raio estava eu ali a fazer na Basílica  ...  (ou que direito tinha de ali estar naquela noite...)

vi os irmãos que não eram irmãos, e o ministro que não era ministro (ele olhou na minha direcção) ...
mas eu não tinha qualquer necessidade de ser visto, nenhuma agenda ou obrigação a cumprir
(não fosse eu, ao fim e ao cabo, realmente invisível)
estava ali apenas como cidadão, como ser humano
como todos os outros que simplesmente se sentiram Tocados por ti

a tentar perceber o que é que nos estava a escapar no meio daquilo tudo ... porque é que tínhamos de abrir mão de ti agora

para então poder finalmente expirar fundo

sábado, 12 de maio de 2012

Assim ?

 
 
 
assim não vale bernardo...        assim não bernardo ...



não, assim, não !


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Monoparental

Quando as familias se convertem em monoparentais dá-se um fenómeno semelhante ao dos imanes. Quando se parte um iman ao meio, não obtemos uma metade positiva e outra negativa. As duas metades passam imediatamente a ter um polo positvo e um negativo ... cada uma das metades passa a funcionar como um todo (a anterior totalidade).

O magnetismo nunca fica parcialmente orfão

sexta-feira, 4 de maio de 2012

As crianças de pais mais velhos já nascem mais velhas

Por isso os filhos da nossa juventude são mais idealistas e perdidos
E os da nossa velhice serão mais sisudos e preocupados

sexta-feira, 27 de abril de 2012

MAS

Turbar-me eu ?
antes preferia trair a minha propria mulher

Mas
se ha pois quem o considere uma e a mesma coisa
ao menos sei que não me traio a mim mesmo ...


Mas
morra miserável e de cheiro nauseabundo
ao menos não viverei de falsos subterfúgios

segunda-feira, 9 de abril de 2012

vai ser difícil explicar a quem quer que seja

A imperiosa necessidade de não deixar a banalidade tomar conta das nossas conversas

(e por arrasto)

a normalidade do nosso dia a dia
a trivialidade das nossas accções
a vulgaridade das nossas vidas

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

"mens sana in corpore sano"

Quem é que te disse que o teu corpo podia ser são ?
Quem é que te disse que a tua mente era sã ?

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

poemas pouco frequentes

os poemas que usualmente
usam palavras pouco frequentes
são aqueles que normalmente
pouca vontade me dão (tambem) de os frequentar

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Nós afinal crescemos para baixo

Quando acordei
e me deixei ficar deitado ao lado dela

cabeça com cabeça
e mão na mão

E vejo como são os meus pés que se estendem para lá dos seus

é que me apercebi
que afinal quando crescemos
não é para cima...
é para baixo...

Pois se o nosso eu não está nos nosso pés,
(está na nossa cabeça)
o que nos sobra não é em cima...
é em baixo.

E se nos quisessem fazer a todos ficar deitados
alinhando-nos ordeiramente (pel)as nossas cabecinhas
poderiamos constatar também essa verdade universal (mente) *

que o alguns teem a mais
não é em cima
é em baixo

nós afinal não crescemos para cima
nós afinal crescemos para baixo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Uma vibração

Há algo nos autistas
que nos revela de certo modo quem somos
donde provimos

aquele pulsar
(aquele ondular)
é o início de tudo

É o princípio
que precede
(que vai agarrar?)
todos os estímulos que virão do exterior

é uma vibração
é uma pulsação
uma dança (sincopada)
que só eles conhecem

O autista é o Eu
antes de tudo
antes de se preencher

antes de receber
aquele impulso
que vai pôr tudo em andamento